▶ Jogar grátis

O caderno

Times de futebol de botão: das marcas históricas ao seu time customizado

Todo botonista lembra do primeiro time. Não do primeiro gol, não da primeira vitória: do primeiro time. Da cartela aberta em cima da mesa, dos onze botões alinhados, do escudo colado torto que ninguém teve coragem de despregar depois. No Brasil, o time de futebol de botão não se compra — se adota. E por trás dessa memória tão pessoal existe uma história industrial, esportiva e afetiva que quase ninguém conta inteira.

Este artigo conta essa história e termina no lugar mais prático possível: como montar o seu time hoje, do zero, sabendo o que a regra permite e o que o mercado oferece.

De onde vieram os times de futebol de botão

A origem tem nome e data. Geraldo Cardoso Décourt (14 de fevereiro de 1911 — 27 de maio de 1998) começou ainda adolescente jogando com botões de roupa e, depois, com os botões do uniforme escolar. Em 1930 publicou o primeiro regulamento organizado do jogo, as "Regras Officiaes do Foot-ball Celotex" — o nome vinha do Celotex, a marca das placas de madeira aglomerada que ele usava como campo.

Vale registrar uma honestidade histórica: as fontes divergem entre 1928, 1929 e 1930 para o marco inicial. 1930 é o ano mais citado e corresponde à publicação do regulamento, mas Décourt já jogava antes disso. O que ninguém contesta é o resto: ele não inventou o hábito de empurrar botão em cima da mesa, inventou a regra que transformou o hábito em esporte.

O reconhecimento veio devagar e depois de uma vez só. A Federação Paulista de Futebol de Mesa foi fundada em 31 de outubro de 1962, na sede da ACM de São Paulo, por três clubes: ACM São Paulo, Associação Atlética Banco do Brasil e Grêmio Esportivo Ultragaz. O primeiro Campeonato Paulista saiu em 1963, com oito clubes. Em 29 de setembro de 1988 o futebol de mesa foi reconhecido oficialmente como esporte no Brasil pelo Conselho Nacional de Desportos. E em 2001 o estado de São Paulo instituiu o 14 de fevereiro — aniversário de Décourt — como o Dia do Botonista.

Time de futebol de botão alinhado sobre a mesa, com escudos colados e goleiro de paleta

As marcas que fizeram os times de futebol de botão

Se você tem mais de trinta anos, alguma dessas palavras vai te dar um soco no peito.

  • Onze de Ouro (1964 e 1965). Lançada pela Editora Saravan com a fábrica Jofer, de Guarulhos. Homenageava as seleções campeãs de 1958 e 1962 e trazia dez clubes — cinco de São Paulo e cinco do Rio — mais a Seleção: os "onze de ouro". Vendida em bancas de jornal, em pacotinhos com um botão cada, no esquema de álbum de figurinhas. Foi assim que meio país montou time: um botão por vez.
  • Bolagol. Da Plásticos Santa Marina, que no começo chamava o produto de "Futebol Miniatura"; o nome Bolagol apareceu no fim dos anos 1960. Ficou marcada pela diversificação absurda: cerca de 130 times, entre clubes brasileiros de vários estados, seleções e times estrangeiros.
  • Gulliver (1969). Fundada pelo espanhol Mariano Lavin Ortiz, que tinha uma pequena fábrica de brinquedos em Madri e emigrou para o Brasil em 1959. Lançou os botões nos anos 1970 e, entre 1977 e 1980, uma série com rostos de jogadores reais. Em 1986 vendeu 150 mil times. Continua em atividade — em 2012 a linha do Neymar Jr vendeu 150 mil unidades em quatro dias.
  • Brianezi. Paulo Brianezi começou nos anos 1960 e passou a vender em caixinhas em 1972. O catálogo de 1987 tinha 245 times: 130 brasileiros, 45 seleções e 70 internacionais — e Flamengo e Corinthians sozinhos respondiam por 30% do faturamento. Fechou em 2002 e foi relançada em 2020. A série "Seleção de Ouro", de 5 cm, é das mais raras entre colecionadores.
  • Estrela. Produziu botões entre 1948 e 1979, e a versão de campo "Estrelão" entre 1972 e 1985, com contratos de licenciamento para usar os escudos dos clubes.

Repare no que essa lista conta: não existiu um único jeito certo de fazer um time. Existiu uma indústria inteira improvisando em paralelo, cada uma com seu material, seu tamanho e sua ideia de escudo. O botonista brasileiro cresceu escolhendo entre marcas, e essa escolha virava identidade.

Do que é feito um bom botão

A lista de materiais que já viraram botão no Brasil é uma aula de criatividade sob restrição: botão de roupa nos anos 1940, fichas de pôquer, casca de coco e chifre de boi nos anos 40 e 50, e por volta de 1960 os vidros de relógio transparentes — as "vidrilhas" — que permitiam colar a foto do jogador por baixo. Só nos anos 60 e 70 veio a industrialização com acrílico, madrepérola e plástico.

Hoje a régua é objetiva. Pela CBFM — a Confederação Brasileira de Futebol de Mesa — o botão tem diâmetro entre 45 e 60 mm e altura máxima de 1 cm, e os materiais permitidos são acrílico, paladon e resina (na modalidade Dadinho, metal e vidro são proibidos expressamente). Botões de competição costumam ser feitos artesanalmente, balanceados e polidos; os de plástico simples, mais leves, são de linha de entrada.

Uma observação honesta, porque circula muita informação inventada sobre isso: não existe um peso oficial em gramas separando "botão de linha" de "botão de competição" nas fontes da federação. O que a regra define é diâmetro, altura e material. O resto é acabamento — e o acabamento, esse sim, você sente no dedo.

Como montar o seu time de futebol de botão

A parte boa: montar time hoje é mais fácil e mais barato do que em qualquer época. Três caminhos, do mais simples ao mais artesanal.

  • Time pronto. Gulliver e Xalingo vendem kits completos com botões, goleiros, paletas e bola. É o caminho de quem quer jogar hoje à noite.
  • Time customizado. Existem fabricantes que montam times com o escudo que você pedir — inclusive de clube de várzea, de empresa ou de time que só existe na sua cabeça. É o presente que ninguém mais tem igual.
  • Time feito em casa. Botão liso + cartela de escudinho impressa e recortada. A comunidade brasileira mantém acervos enormes de artes de escudos para baixar e imprimir, com milhares de cartelas disponíveis. Custa quase nada e é, de longe, o mais divertido.

O detalhe que separa um time bonito de um time bem feito é o centro. O escudo colado torto não é só feio: desloca o ponto onde seu dedo bate. Cole com o time em cima de uma superfície plana, pressione do centro para fora e deixe secar sem mexer. É a diferença entre um botão que corre reto e um que puxa para a esquerda a partida inteira.

A regra muda o time que você monta

Isso quase nunca se conta para quem está começando, e devia ser a primeira coisa: a modalidade que você joga determina o time que faz sentido montar. A CBFM reconhece oito modalidades. As três clássicas:

  • 12 Toques (Regra Paulista). Partidas de 20 minutos, em dois tempos de 10, com no máximo 12 toques por posse e até 3 toques seguidos com o mesmo botão. É a mais praticada do país.
  • 3 Toques (Regra Carioca). Partidas de 40 minutos, em dois tempos de 20, com limite coletivo de 3 toques e passe obrigatório no segundo. Jogo mais tático, mais lento, mais cruel.
  • 1 Toque (Regra Baiana). O extremo oposto: um toque e a bola muda de dono. Aqui a precisão do botão importa mais do que em qualquer outra.

Traduzindo para a prática: em 12 Toques compensa um time com botões parelhos, porque você vai construir jogadas. Em 1 Toque, o que vale é ter dois ou três botões excelentes e saber exatamente qual usar. Montar time sem saber em que regra você vai jogar é como comprar chuteira sem saber se o campo é de grama ou de saibro.

Por que isso tudo sobreviveu

A CBFM foi fundada em 27 de setembro de 1992, em Curitiba, com as federações do Amazonas, Paraná, São Paulo e Pernambuco. Existem hoje milhares de atletas federados e mais de uma centena de clubes filiados espalhados pelo país. O Museu do Futebol, em São Paulo, mantém material educativo sobre uma versão adaptada do jogo — feita com botão de camisa, tampinha e caixa de fósforo como gol — usada em oficinas com crianças.

Ou seja: o futebol de botão atravessou o videogame, o celular e o streaming sem virar peça de museu. Continua sendo jogado, federado e vendido. E a razão é simples e velha: é um jogo de dedo, de mesa e de duas pessoas. Não tem senha, não tem fila de matchmaking, não acaba quando a bateria acaba.

No Toy Soccer Cup a gente pegou exatamente essa sensação — o toque, o tempo, o time que é seu — e colocou numa tela, para quando a mesa não está disponível. Não é para substituir o botão. É para que o gesto continue existindo no bolso, e para que a criança que nunca abriu uma cartela do Onze de Ouro descubra por que o avô dela guardava aquilo numa caixa de sapato.

Fontes

Cada data, número e medida acima foi conferida nestas fontes:

  • Geraldo Cardoso Décourt, Wikipédia — Campinas, 14 de fevereiro de 1911, morte em 27 de maio de 1998, o início por volta de 1929 com o nome «Celotex» e as «Regras Officiaes do Foot-ball Celotex» de 1930.
  • História, Federação Paulista de Futebol de Mesa — a fundação em 31 de outubro de 1962, às 20 horas, no salão nobre da A.C.M. da Rua Nestor Pestana, e os três clubes fundadores: A.C.M. de São Paulo, Associação Atlética Banco do Brasil e Grêmio Esportivo Ultragaz.
  • Regras, Confederação Brasileira de Futebol de Mesa — o botão de 45 a 60 mm de diâmetro e no máximo 1 cm de altura, em acrílico, paladon ou resina, e as regras de toques de cada modalidade.
  • A história das principais marcas de futebol de botão, Guia dos Curiosos — a Onze de Ouro de 1964 e 1965 da Ed. Saravan com a Jofer e seus cinco clubes paulistas e cinco cariocas, o Bolagol da Plásticos Santa Marina que começou como «Futebol Miniatura», a chegada de Mariano Lavin Ortiz em 1959 e a Gulliver dez anos depois, e o catálogo Brianezi de 1987 com 245 times: 130 brasileiros, 45 seleções e 70 de outros 23 países.

Sobre a divergência de datas do início — 1928, 1929 ou 1930 — as fontes realmente não batem, e por isso ela está dita no texto em vez de escondida. Se você encontrar um erro, me escreva.