O caderno
Todo botonista lembra do primeiro time. Não do primeiro gol, não da primeira vitória: do primeiro time. Da cartela aberta em cima da mesa, dos onze botões alinhados, do escudo colado torto que ninguém teve coragem de despregar depois. No Brasil, o time de futebol de botão não se compra — se adota. E por trás dessa memória tão pessoal existe uma história industrial, esportiva e afetiva que quase ninguém conta inteira.
Este artigo conta essa história e termina no lugar mais prático possível: como montar o seu time hoje, do zero, sabendo o que a regra permite e o que o mercado oferece.
A origem tem nome e data. Geraldo Cardoso Décourt (14 de fevereiro de 1911 — 27 de maio de 1998) começou ainda adolescente jogando com botões de roupa e, depois, com os botões do uniforme escolar. Em 1930 publicou o primeiro regulamento organizado do jogo, as "Regras Officiaes do Foot-ball Celotex" — o nome vinha do Celotex, a marca das placas de madeira aglomerada que ele usava como campo.
Vale registrar uma honestidade histórica: as fontes divergem entre 1928, 1929 e 1930 para o marco inicial. 1930 é o ano mais citado e corresponde à publicação do regulamento, mas Décourt já jogava antes disso. O que ninguém contesta é o resto: ele não inventou o hábito de empurrar botão em cima da mesa, inventou a regra que transformou o hábito em esporte.
O reconhecimento veio devagar e depois de uma vez só. A Federação Paulista de Futebol de Mesa foi fundada em 31 de outubro de 1962, na sede da ACM de São Paulo, por três clubes: ACM São Paulo, Associação Atlética Banco do Brasil e Grêmio Esportivo Ultragaz. O primeiro Campeonato Paulista saiu em 1963, com oito clubes. Em 29 de setembro de 1988 o futebol de mesa foi reconhecido oficialmente como esporte no Brasil pelo Conselho Nacional de Desportos. E em 2001 o estado de São Paulo instituiu o 14 de fevereiro — aniversário de Décourt — como o Dia do Botonista.
Se você tem mais de trinta anos, alguma dessas palavras vai te dar um soco no peito.
Repare no que essa lista conta: não existiu um único jeito certo de fazer um time. Existiu uma indústria inteira improvisando em paralelo, cada uma com seu material, seu tamanho e sua ideia de escudo. O botonista brasileiro cresceu escolhendo entre marcas, e essa escolha virava identidade.
A lista de materiais que já viraram botão no Brasil é uma aula de criatividade sob restrição: botão de roupa nos anos 1940, fichas de pôquer, casca de coco e chifre de boi nos anos 40 e 50, e por volta de 1960 os vidros de relógio transparentes — as "vidrilhas" — que permitiam colar a foto do jogador por baixo. Só nos anos 60 e 70 veio a industrialização com acrílico, madrepérola e plástico.
Hoje a régua é objetiva. Pela CBFM — a Confederação Brasileira de Futebol de Mesa — o botão tem diâmetro entre 45 e 60 mm e altura máxima de 1 cm, e os materiais permitidos são acrílico, paladon e resina (na modalidade Dadinho, metal e vidro são proibidos expressamente). Botões de competição costumam ser feitos artesanalmente, balanceados e polidos; os de plástico simples, mais leves, são de linha de entrada.
Uma observação honesta, porque circula muita informação inventada sobre isso: não existe um peso oficial em gramas separando "botão de linha" de "botão de competição" nas fontes da federação. O que a regra define é diâmetro, altura e material. O resto é acabamento — e o acabamento, esse sim, você sente no dedo.
A parte boa: montar time hoje é mais fácil e mais barato do que em qualquer época. Três caminhos, do mais simples ao mais artesanal.
O detalhe que separa um time bonito de um time bem feito é o centro. O escudo colado torto não é só feio: desloca o ponto onde seu dedo bate. Cole com o time em cima de uma superfície plana, pressione do centro para fora e deixe secar sem mexer. É a diferença entre um botão que corre reto e um que puxa para a esquerda a partida inteira.
Isso quase nunca se conta para quem está começando, e devia ser a primeira coisa: a modalidade que você joga determina o time que faz sentido montar. A CBFM reconhece oito modalidades. As três clássicas:
Traduzindo para a prática: em 12 Toques compensa um time com botões parelhos, porque você vai construir jogadas. Em 1 Toque, o que vale é ter dois ou três botões excelentes e saber exatamente qual usar. Montar time sem saber em que regra você vai jogar é como comprar chuteira sem saber se o campo é de grama ou de saibro.
A CBFM foi fundada em 27 de setembro de 1992, em Curitiba, com as federações do Amazonas, Paraná, São Paulo e Pernambuco. Existem hoje milhares de atletas federados e mais de uma centena de clubes filiados espalhados pelo país. O Museu do Futebol, em São Paulo, mantém material educativo sobre uma versão adaptada do jogo — feita com botão de camisa, tampinha e caixa de fósforo como gol — usada em oficinas com crianças.
Ou seja: o futebol de botão atravessou o videogame, o celular e o streaming sem virar peça de museu. Continua sendo jogado, federado e vendido. E a razão é simples e velha: é um jogo de dedo, de mesa e de duas pessoas. Não tem senha, não tem fila de matchmaking, não acaba quando a bateria acaba.
No Toy Soccer Cup a gente pegou exatamente essa sensação — o toque, o tempo, o time que é seu — e colocou numa tela, para quando a mesa não está disponível. Não é para substituir o botão. É para que o gesto continue existindo no bolso, e para que a criança que nunca abriu uma cartela do Onze de Ouro descubra por que o avô dela guardava aquilo numa caixa de sapato.
Cada data, número e medida acima foi conferida nestas fontes:
Sobre a divergência de datas do início — 1928, 1929 ou 1930 — as fontes realmente não batem, e por isso ela está dita no texto em vez de escondida. Se você encontrar um erro, me escreva.