O caderno
Pelas regras da Confederação Brasileira de Futebol de Mesa, um botão é um disco de no máximo 60 mm de diâmetro e no máximo 1 cm de altura, feito de acrílico, paladon ou resina — o mínimo muda conforme a modalidade (45 mm na regra de bola, menor no dadinho), e todos os botões de uma equipe precisam estar numerados. Quer dizer: o tamanho do seu escudo já está decidido antes de você abrir qualquer programa de desenho. Escudos para futebol de botão não são arte livre — são arte com uma medida em cima.
E aqui está a tese deste texto: o botão você compra pronto, a mesa você compra ou constrói uma vez na vida, a bola é a bola. O escudo é a única peça do futebol de botão que você fabrica sozinho, toda vez, para cada time. É ele que transforma onze discos de acrílico idênticos em um time com nome, cor e história. Sem escudo você tem peças; com escudo você tem o Corinthians.
Não é conversa de colecionador saudosista. Foi exatamente assim que o jogo virou febre: a coleção Onze de Ouro, lançada em 1964 e relançada em 1965, homenageava as seleções de 1958 e 1962 e era vendida em banca de jornal, em pacotinhos — e para fechar um time você tinha que trocar peças com os amigos, porque goleiro nunca vinha fácil. O que se colecionava não era o disco de plástico. Era o escudo em cima dele.
O erro número um de quem está começando é desenhar primeiro e medir depois. Faça ao contrário: pegue o botão, meça com uma régua e só então desenhe.
Aquela borda de um ou dois milímetros não é estética: é o que impede que a unha do adversário levante o adesivo no primeiro esbarrão. Escudo colado rente à borda dura três partidas.
É aqui que a maioria dos times bonitos morre. Você acha uma arte ótima na internet, manda imprimir, e sai do tamanho de uma moeda de um real quando devia ter 46 mm. O culpado tem nome: a opção "ajustar à página".
O caminho que funciona sempre é este:
A conta é simples e vale a pena decorar: milímetros dividido por 25,4, vezes 300. Um escudo de 46 mm precisa de 543 pixels. Um de 33 mm precisa de 390. Se a imagem que você baixou tem 200 pixels, ela vai sair chapada no papel — procure outra.
Papel: couché fosco 180 g é o melhor custo-benefício. Papel comum de 75 g fica transparente sobre acrílico claro e amassa na hora da cola.
Três caminhos, do mais barato ao mais bonito.
Um detalhe que quase ninguém lembra: a resina adiciona altura. Se o seu botão já tem 9 mm, a cúpula pode estourar o limite de 1 cm do regulamento. Para jogar em casa tanto faz; para jogar federado, meça.
E não esqueça a numeração. As regras exigem que os botões estejam numerados, então o número entra no projeto do escudo desde o começo — normalmente pequeno, embaixo, ou no verso do disco.
Se você vai inventar o seu time — e essa é a parte mais divertida, principalmente com criança junto — vale seguir três regras de desenho que valem mais que qualquer tutorial.
O teste definitivo é o da mesa: imprima um, cole num disco, ponha no tabuleiro e afaste-se um metro. Se você reconhece o time de pé, na sua cadeira, o escudo está pronto. Se precisa se abaixar, refaça.
Vale lembrar do óbvio jurídico: escudo de clube profissional é marca registrada. Para jogar em casa, com os amigos, ninguém vai atrás de você. Para vender times prontos, aí é outra conversa.
Antes da impressora em casa, o escudo vinha de fábrica — e as fábricas viraram lenda: Bolagol, Gulliver, Estrela, Brianezi, Ki-Gol, Crak’s. A Bolagol chegou a produzir cerca de 130 times, entre clubes brasileiros, seleções e times estrangeiros. Quem tem mais de quarenta anos reconhece o acabamento de longe, e é por isso que uma cartela antiga completa ainda é caçada em feira de colecionador.
Repare no que aconteceu: o jogo é o mesmo desde o primeiro livro de regras, de 1930 — as «Regras Officiaes do Foot-ball Celotex», de Geraldo Décourt — e virou esporte reconhecido em 1988, pela Resolução nº 14 do Conselho Nacional de Desportos, de 29 de setembro. O que mudou de década em década foram os escudos. A regra é permanente, a identidade é renovável. É exatamente por isso que fazer escudo nunca sai de moda.
Se você quer o resto do pacote, as regras completas estão em como jogar futebol de botão, e a história de quem escreveu aquele primeiro livro está em Geraldo Décourt e a invenção do futebol de botão.
De 2 a 4 mm menor que o diâmetro do disco. Para um botão de 48 mm, um escudo de 44 a 46 mm; para um de 35 mm, um escudo de 32 a 33 mm. A borda de acrílico à mostra é o que impede o adesivo de descascar.
Defina a largura em milímetros dentro do documento, imprima em 100% com a opção de ajustar à página desativada, e confira com uma régua numa folha de teste antes de imprimir a folha inteira.
Adesivo vinil branco dura muito mais e não amassa. Papel com cola branca é mais barato e reversível, mas estraga com umidade. Resina por cima resolve os dois casos e ainda amplia o desenho.
Para jogar em casa e com amigos, na prática sim. Para vender times prontos ou artes, não: escudo de clube profissional é marca registrada.
Fazer escudo na mão é insubstituível, e nada do que existe numa tela chega perto do cheiro da cola branca secando. Mas se a vontade bateu agora e a tesoura está longe, Toy Soccer Cup tem um editor de escudos dentro do jogo: pincel, carimbos, desfazer, e o escudo aparece no time na mesma hora. É grátis no navegador, sem instalar nada.
E depois vá atrás do armário da sua mãe. A chance de existir um time de Gulliver esquecido lá dentro é maior do que você imagina — e aquele escudo você não precisa desenhar.
As medidas de escudo recomendadas aqui (2 a 4 mm menores que o disco, 300 dpi) não saem de regulamento nenhum: são prática de oficina, e você pode discordar. Se achar um erro de fato, me escreva.