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O caderno

Futebol de botão antigo: como identificar, datar e saber se vale alguma coisa

A cena se repete em milhares de casas brasileiras: alguém abre um armário antigo e encontra uma caixinha com botões. Alguns coloridos, outros transparentes, um ou dois com uma carinha impressa. E vem a pergunta inevitável — o que é isso, de quando é, e vale alguma coisa?

Este guia responde as três, e na ordem certa. Porque para saber o valor, primeiro é preciso saber a época; e a época está escrita no material.

O material conta a década

Esta é a tabela que resolve 80% dos casos sem precisar de especialista:

  • Botão de camisa de verdade (anos 40). Sim, literalmente. É daí que vem o nome do jogo. Sem escudo, sem cor de time, sem nada — só um botão de roupa que alguém transformou em jogador.
  • Fichas de pôquer, casca de coco, chifre de boi (anos 50). A era artesanal. O botão de chifre de boi era típico de Recife, feito à mão, numa época em que ainda não havia padronização de tamanho nem federação para normatizar nada.
  • Vidrilha ou tampa de relógio (por volta de 1960). Lentes transparentes de resina termoplástica. A grande novidade: dava para colar por baixo um escudo ou a foto de um jogador. Se o seu botão é transparente e tem um papelzinho preso embaixo, você está nos anos 60.
  • Acrílico e plástico industrial (anos 60-70). O fim da improvisação. Produção em série, tamanhos padronizados, cores de time de fábrica.

Uma ressalva honesta: as fontes narram essa progressão como cronologia aproximada, não com datas de corte exatas. Um botão de vidrilha pode ter convivido com um de acrílico na mesma caixa e na mesma mesa. A tabela orienta; não é certidão de nascimento.

Botões antigos de futebol de botão sobre uma mesa de madeira, alguns em vidro e outros em acrílico

A marca conta a fábrica

Cada fabricante tinha sua assinatura física. Estas são as pistas concretas:

  • Onze de Ouro (1964 e 1965). Da editora Saravan com a Jofer. Detalhe lindo e pouco lembrado: o fundo das cartelas trazia a concha acústica do Pacaembu para os clubes paulistas e o Maracanã para os cariocas. Vendida em banca de jornal, um botão por pacotinho.
  • Bolagol (Plásticos Santa Marina, fábrica inaugurada em 13/08/1966, no Brás; fechou no início dos anos 80). Assinatura inconfundível: uma depressão central onde se encaixa um papelzinho redondo com o escudo, às vezes com uma tampa transparente por cima que, com o tempo, costuma se soltar. Cerca de 130 times catalogados.
  • Gulliver (1969), de São Caetano do Sul, dos filhos do espanhol Mariano Lavin Ortiz. Material batizado de "Gulliver Cristal". Em 1977 lançou a série das "carinhas" — rostos de jogadores impressos — descontinuada por volta de 1980.
  • Brianezi. "Botões de tampa" feitos de celuloide. O catálogo de 1987 tinha 245 times; Flamengo e Corinthians sozinhos eram 30% das vendas. Fechou em 2002 e foi relançada em 2020.
  • Estrela (1948-1979). A pioneira da industrialização. Lançou por volta de 1961 o botão "canoinha" (coleção Reis do Futebol) e depois o modelo mais alto e barato, apelidado de "chutador" ou "panelinha". Tinha licença apenas dos quatro grandes de São Paulo.
  • Jofer (Guarulhos, anos 60): traz gravado "Jofer — Ind. Bras.". Canindé (anos 80, Vila Ema): botões menores e caixa amarela quadrada. Champion (fim dos 80): transparentes, sem cor nenhuma, com o símbolo colado por baixo. Sportec (anos 80): vinha liso, e os adesivos de faixa, escudo e número vinham à parte.

As séries realmente raras

Três nomes aparecem sempre nas conversas de colecionador, e por motivos concretos:

  • Seleção de Ouro, da Brianezi (5 cm, celuloide importado, parte da "Série Luxo" do fim dos anos 70). É citada como das peças mais raras que a fábrica produziu.
  • Cartelas completas de Onze de Ouro. A raridade não está no botão, está em completar. Como se vendia solto em banca, um por pacote, reunir o time inteiro com goleiro e travinhas exigia troca — e por isso quase ninguém tem a cartela cheia hoje.
  • As "carinhas" da Gulliver (1977-1980). Produção de uns três anos apenas. Curta demais para ser comum, longa o bastante para virar lembrança coletiva.

Quanto vale de verdade

Aqui é preciso ser franco, porque é onde mais gente se ilude — e onde mais gente é enganada.

No Mercado Livre, uma busca por Brianezi devolve mais de duzentos anúncios, com preços que vão de cerca de R$ 75 a mais de R$ 300. Botões avulsos de coleção chegam a ser anunciados no exterior por valores equivalentes a algumas dezenas de dólares. São referências de anúncio, não de venda fechada: o que o vendedor pede e o que o comprador paga são coisas diferentes.

E vale repetir o alerta que os próprios colecionadores fazem: existe especulação. Há quem anuncie por 300, 400 ou 600 reais um botão comum que vale cinco ou dez. Antes de comprar — ou de achar que ficou rico — compare com vários anúncios e desconfie de peça "rara" que aparece toda semana.

O que realmente sustenta valor é o mesmo de sempre: produção curta, conjunto completo e caixa original. Um time inteiro com goleiro, travinhas e a embalagem vale muito mais do que a soma dos botões soltos.

Como conservar sem estragar

Um aviso de honestidade: não existe um manual consagrado de restauro para botão antigo brasileiro. O que há é bom senso de colecionador, e ele cabe em três linhas.

Os inimigos são umidade, calor e luz direta — guarde limpo, seco e longe do sol. Para limpar, pano macio e seco; se precisar de umidade, muito pouca. E o que nunca se deve fazer: escova de cerdas duras, saponáceo ou esponja de aço. Riscam o acrílico de forma permanente e, num botão, riscar a superfície não é só feio — muda como ele desliza.

Sobre o celuloide antigo e o acrílico amarelado, a recomendação sincera é não experimentar com produtos caseiros numa peça rara. Teste antes num botão comum, dos que você tem repetido.

A comunidade continua viva

Se você quer saber mais — ou identificar uma peça específica — existe gente dedicada a isso há décadas.

O 14 de fevereiro é o Dia do Botonista, em homenagem ao aniversário de Geraldo Décourt, o criador do jogo; a data foi oficializada em 2001 pelo estado de São Paulo. Todo ano o Museu do Futebol costuma marcar a data com transmissões e conversas sobre o tema. Existe um blog de referência que documenta cartelas e marcas desde 2010, e há até um podcast dedicado, com mais de duzentos episódios, sobre botão e futebol.

E fica uma provocação que veio da própria comunidade, e que acho a melhor frase deste artigo inteiro: o colecionador que só acumula e nunca joga está deixando a peça morrer. Todo colecionador de botões deveria ser botonista. Guardar conserva o objeto; jogar conserva o jogo.

É a mesma ideia que nos guiou no Toy Soccer Cup: um jogo é feito para ser jogado, não para ficar na caixa. A sua coleção merece as duas coisas — a prateleira e a mesa.

Fontes

Se você tem uma cartela que contradiz alguma data daqui, ela vale mais que o texto: me escreva.